É dificil fazer uma afirmação taxativa porque a decisão foi tomada por um juiz e eu não sei o que se passou na cabeça dele ao tomar a decisão. Mas uma coisa é possivel garantir. O magistrado dificilmente ficou imune ao bombardeio informativo promovido pela imprensa em torno do assassinato de menina Isabella. Toda a sociedade acabou contaminada pelo carnaval midiático. Nestas condições pode-se dizer que todos os consumidores de informações sofreram e sofrem a influência da mídia, tanto no caso Isabella como em qualquer outro assunto incluido na agenda pública de debates. A questão não é se a decisão foi influenciada, mas sim como foi influenciada pela midia.
A que o senhor atribui o grande clamor público que o caso despertou?
Acredito que o crescente voyeurismo nos habitos dos telespectadores e o fato do crime envolver uma familia de classe média afluente e violência doméstica aguçaram a curiosidade do público. Além do mais a opinião publica já estava cansada da sucessão de escandalos politicos que acabam inevitavelmente em pizza, reforçando a crença popular na impunidade dos governantes e politicos. Diante disto as emissoras de TV encontraram um terreno fertil para montar o espetaculo, transformando um crime numa especie de caso especial, serializado. Quando a TV Record começou a roubar audiência da Globo, estabeleceu-se a guerra por pontos no IBOPE e o caso fugiu do controle dos jornalistas para ficar na órbita dos marqueteiros e estrategistas de audiências.
Qual é a sua análise da cobertura que a mídia tem feito do assassinato?
Antes de tudo uma diferença. O conceito de mídia inclui a imprensa, mas também a publicidade e o marketing. No caso Isabella é necessario distinguir cada parte.
O principal erro dos jornalistas foi ter abaixado a cabeça para os departamentos comerciais das emissoras de TV, criando um viés sensacionalista destinado a capturar audiências mas que acabou influenciando também as redações de jornais, revistas, noticiarios radiofonicos e até a internet. Perdeu-se a preocupação com o interesse publico, que no caso Isabella poderia levar à discussão da questão da violência doméstica e como reduzi-la. Isto seria a função dos jornalistas, além de fiscalizar a ação da justiça e da policia. O que os jornalistas fizeram foi procurar tornar-se parte da investigação, fugindo ao seu papel.
Em que medida podemos comparar o caso Isabella Nardoni com a Escola Base de São Paulo?
São dois casos diferentes. Na Escola Base, os jornalistas cometeram um erro sério de informação, ao não confirmar as versões da policia. Já no caso Isabella, até agora não há indícios de que os jornalistas tenham cometido o mesmo erro.
* Carlos Albano Volkmer de Castilho é jornalista com 35 anos de experiência em rádio, jornais, revistas, televisão e agências de notícias, no Brasil e no exterior. Foi correspondente do Jornal do Brasil no Chile, editor chefe do Jornal da Globo e chefe do escritório da TV Globo em Londres, consultor de comunicação das Nações Unidas e União Européia, na Costa Rica. Mestrando em Mídia e Conhecimento no Programa de Engenharia e Gestão do Conhecimento, da Universidade Federal de Santa Catarina, diretor do Observatório da Imprensa, professor de Jornalismo Online e Processos Multimídia, nas Faculdades ASSESC (Florianópolis) e do curso a distância de Jornalismo Online, do Centro Knight da Escola de Jornalismo da Universidade do Texas.
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